“Crise testará grau de liberalismo do governo”, diz economista que faz palestra em Maceió nesta 5ª

Publicado em 10 de Março de 2020

por Rodrigo Cavalcante

O economista paulista André Perfeito ficou conhecido na mídia por expressar pontos de vista pouco comuns entre os seus colegas do mercado financeiro na Av. Faria Lima, em São Paulo.

Economista-chefe da corretora de valores Necton, ele não é apenas um dos raros operadores de mercado financeiro assumidamente keynesiano (adepto do economista britânico John Maynard Keynes, que mostrou como o Estado tem um papel decisivo em recuperação de crises econômicas), como causou polêmica entre os pares ao declarar o voto em Ciro Gomes nas últimas eleições presidenciais.

Pouco antes de desembarcar em Maceió, onde fará uma palestra para convidados às 19h nesta quinta, no Maceió Mar Hotel (na abertura da corretora Invest Now, braço da Necton em Alagoas), o economista falou com AGENDA A sobre as perspectivas para economia brasileira em tempos de coronavírus e nervosismo na bolsa.

AGENDA A: Quando o Brasil alcançou sua taxa de juros reais mais baixa e você mesmo chegou a prever crescimento de 3% do PIB este ano, eis que os dados detalhados do PIB de 2019, o coronavírus e a queda do preço do petróleo provocaram um caos no mercado nesta segunda. O que há de pane psicológica e o que há de causa estrutural nesta crise?

Acredito que essa crise é resultado de dois movimentos. De um lado, ela decorre da desaceleração econômica gerada pelo coronavírus que está, na prática, retirando recursos da produção para alocar na prevenção. Isso tem um custo e as bolsas estavam se readequando a essa nova realidade. Mas também houve uma ação isolada do FED (Banco Central dos EUA) semana passada que, ao meu ver, foi desastrosa, cortando a taxa de juros de uma maneira acentuada. Da forma como foi feito, o corte terminou gerando desconfiança no mercado, quase como se alguém estivesse doente e precisasse avisar “olha, está tudo bem, viu?”. Isso fez com que alguns interpretassem que pode estar havendo uma crise de crédito no mercado norte-americano, enfim, foram sinais estranhos que geraram mais volatilidade no mercado. 

Antes mesmo dessa queda, você já havia reduzido a projeção de crescimento brasileiro em 2020 de 3% para menos de 2%. E agora, após essa crise, qual sua previsão?

Apesar de ainda estarmos no meio do mal-estar psicológico, estimo um crescimento de 1,8% esse ano. Lembro que a revisão de estimativa não se deu pelo coronavírus, mas pelo detalhamento dos dados do PIB do país do último trimestre de 2019 que já apontaram uma queda no investimento. Mas é preciso analisarmos como o governo vai se comportar porque, como toda crise, há oportunidades para o Brasil. Se, por um lado, por exemplo, a queda de ações da Petrobras é um desastre para quem tem títulos da empresa, por outro, a queda do preço do barril pode resultar em redução do preço de combustível, o que é bom para a inflação. Para isso, contudo, temos que ver se a equipe econômica liderada por Paulo Guedes, a primeira assumidamente liberal no país, vai conseguir manter certa coerência e evitar, por exemplo, interferências na política de preço de combustíveis.

O ministro Paulo Guedes disse que o governo não estava preocupado com a escalada do dólar. Nessa segunda, contudo, o Banco Central leiloou três bilhões de dólares das reservas do país para conter uma escalada ainda maior do dólar. Isso não transmite sinais ambíguos para o mercado?

Sem dúvida, essa política, digamos, bipolar, não apenas gera ruído, como, ao meu ver, é ineficaz. Acho que o o Banco Central deveria manter as reservas e comunicar com mais clareza, na próxima reunião do Copom, se terá como foco principal controlar os juros ou o câmbio. Querer controlar os dois é meio confuso.   

Você é conhecido como um militante do mercado financeiro que defende a ampliação do acesso a esse mercado ao cidadão. Com a queda na bolsa dessa segunda, não fica difícil convencer o brasileiro a trocar a poupança e renda fixa por esses investimentos?

Primeiro, acho temos que lembrar que o mercado de ações é apenas um dos produtos de uma corretora. Existe uma série de outros instrumentos sofisticados que trazem rentabilidade acima da poupança e renda fixa. E, por mais traumático que seja a queda na bolsa desta segunda, ela tem também, claro, um caráter educativo. Afinal, quem investe nesse mercado de capitais sabe que está, sim, sujeito a essas oscilações. Faz parte do jogo, tem emoção, bem-vindo ao clube. Dito isso, precisamos lembrar também que, com a redução estrutural da taxa real de juros no Brasil, ninguém vai conseguir ganhar dinheiro fácil aplicando em poupança ou renda fixa como ganhava, por exemplo, até 2005, quando os juros reais batiam os 12%. Hoje, o cidadão precisa se informar melhor, conhecer novos instrumentos e as corretoras têm um papel essencial nesse novo momento do país.

Há quem diga que o principal teste do liberalismo da equipe econômica será conseguir, de fato, trazer mais concorrência ao setor financeiro concentrado hoje em 4 grandes bancos. Você acha que essa abertura vai realmente acontecer?

Acredito que o que favorece esse novo momento são dois aspectos, um estrutural e outro conjuntural. O estrutural, macroeconômico, como já citei, é a redução da taxa de juros que não permite mais que o cidadão ganhe dinheiro deixando o banco aplicar seu recurso em qualquer produto, como no passado. No passado, com os juros na estratosfera, qualquer produto ruim trazia rentabilidade e era fácil para muitos corretores acharem que eram gênios das finanças. Com os juros baixos, esse jogo mudou. É preciso intermediários com mais qualificação e as corretoras, como disse, são essenciais nesse papel. Já o fator conjuntural é a emergência de novas tecnologias que permite ao cidadão ter muito mais informação e opções de produtos. Enfim, os juros baixos e as novas tecnologias favorecem esse novo cenário. E o Paulo Guedes, nesse sentido, tem sido coerente ao dizer que o Brasil tem que se acostumar com juros baixos e câmbio mais alto, se assim ditar o mercado. Observe que ele nunca prometeu altas taxas de crescimento econômico. Ele está mais preocupado em fazer um ajuste liberal, com foco e preocupação maior na oferta do que na demanda. Resta se o presidente Bolsonaro terá paciência para não interferir nessa política, como vez por outra ameaça. Sem querer avaliar aqui a descompostura de fazer com que um humorista apareça em seu lugar para falar sobre o PIB, esse comportamento do presidente já indica, por si, o desconforto do presidente em tratar de temas econômicos e de como ele não está muito feliz com o ritmo da economia.

 

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