“Sem dados e testes em massa, não há como relaxar isolamento social”, diz pesquisador da Ufal

Publicado em 15 de Abril de 2020

No momento em que muitos alagoanos começam a relaxar os cuidados de distanciamento social, um grupo independente de professores e pesquisadores das áreas de Computação, Física e Matemática da Ufal divulgou nesta segunda (13) um relatório com projeções matemáticas que recomendam que o Estado não flexibilize essas medidas – sob a tendência de acelerar a demanda por milhares de leitos, o que geraria um colapso no sistema de saúde pública.“Os modelos mostram que qualquer decisão de relaxamento dessas medidas nesse momento pode colocar em risco milhares de vidas no Estado”, diz o pesquisador Sérgio Lira, do Instituto de Física da Ufal, que assina o relatório “Relatório Covid-19 número 2” ao lado de 10 pesquisadores do grupo de modelagem científica e simulação do surto de Covid-19 em Alagoas. Abaixo, o pesquisador, que integra também o Comitê Científico montado pelo Consórcio Nordeste, falou com AGENDA A sobre as projeções e o que os governos terão que fazer para poderem reativar setores do comércio.

AGENDA A: Os dados do relatório recomendam que sejam mantidos e até reforçados os decretos de isolamento social em Alagoas num momento em que a sociedade pede a revisão dessas medidas. É isso mesmo?

Sim, e a razão é simples. Mesmo mantendo as atuais medidas restritivas, que não são drásticas como um “lockdown”, os modelos mostram que ao menos o sistema de saúde do Estado conseguirá ganhar algum tempo para se preparar para o aumento na demanda de leitos e evitar mortes.

Quantas mortes?

Mantidas as restrições atuais, e considerando dois cenários como ponto de partida, um com o mínimo de 30 infectados iniciais, e outro com 300, nossas simulações mostram que, em 120 dias, a demanda por leitos seria de 842 pacientes no valor mínimo inicial e 4201 no valor máximo inicial. Ainda que a simulação se encontre em um número intermediário, é claro que não temos estrutura de leitos para suportar essa demanda, o que poderia resultar em milhares de mortes. Esses modelos, no entanto,  são dinâmicos, captam melhor os próximos dias, o que significa que a previsão perde em precisão num horizonte de mais dias.

O relatório chega a falar em 9 mil mortes...

Sim, mas é preciso levar em conta que, como disse, esses modelos vão se modificando a partir de novas informações e de novas ações de combate ao vírus. É uma previsão com base num retrato atual. Por isso, em vez de focarmos num possível número de mortes ao final da epidemia, em que a margem de imprecisão da simulação é maior, já que o horizonte de tempo é maior, as simulações são mais úteis para prever a velocidade da curva de evolução da pandemia com base em novos dados.Esses dados, contudo, ainda não existem, já que o Estado está com dificuldades de fazer testes maciços e nem sequer os profissionais de saúde estão sendo testados na sua maioria.
Sem esses dados, como pedir para a população manter a restrição que afeta a economia e vida de milhares de pessoas?Esse é, sem dúvida, o problema central não só de Alagoas, como da maioria dos Estados e de todo o Brasil. Comparado com países como a Alemanha, por exemplo, que ainda em março estava realizando 500 mil testes por semana, o número de testes no Brasil é muito escasso. E sem um número robusto de testes e uma base de dados de qualidade, tanto o governo Federal quanto os governos estaduais não têm como tomar decisões bem embasadas para, por exemplo, poder relaxar algumas restrições. Sem dados, não há como relaxar essas medidas.
Mas nenhuma economia nem sociedade provavelmete suportaria 120 dias de restrições...Deixamos claro no relatório que não estamos sugerindo que o governo, com base nessas simulações, estenda as medidas de restrições por quatro meses, até porque sabem que essa medida não é prática e poderia asfixiar a economia do Estado. Estamos sugerindo apenas que as medidas atuais não sejam relaxadas enquanto o Estado não tenha capacidade para fazer um número significativo de testes na população e possa contar com uma melhor estrutura para equipar profissionais de saúde com EPI, expandir a capacidade de leitos e respiradores e ter melhores estratégias para quebrar a cadeia de contágio. 

Com uma população de pouco mais de 3 milhões de habitantes, quantos testes seriam necessários para o governo, por exemplo, ter segurança para reativar o comércio?

Muitos, mas ainda é difícil estimar. Já estamos trabalhando em projeções desse tipo nesse momento. Com esses dados, o governo poderia contar com indicadores para traçar estratégias que envolvessem relaxar ou intensificar as medidas de isolamento social. 


Sem esses dados, o governo, então, na sua opinião, não tem como ter segurança para relaxar o decreto?

Exatamente. Sem dados ou informações, os riscos envolvidos em abandonar as medidas de isolamento são altos. Mal comparando, é como se um piloto de avião em meio a uma tempestade, sem visibilidade ou dados do radar, decidisse por conta própria mudar de rota ou diminuir a altitude da aeronave. Daí a importância dos dados. Sem eles, as medidas de restrição atuais ao menos dão ao piloto mais tempo para evitar o pior no curto prazo.



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