“Enfrentar a verdade nua e crua”: a lição esquecida por alguns líderes empresariais na pandemia

Publicado em 15 de Maio de 2020

por Rodrigo Cavalcante

Discípulo de Peter Drucker (papa da gestão do século XX), o consultor Jim Collins se tornou um dos gurus de liderança mais seguidos no mundo (no Brasil, de Abílio Diniz a Jorge Paulo Lemann) graças a livros como “Good to Great – Empresas Feitas Para Vencer”, onde analisa o perfil dos líderes das empresas de sucesso duradouro nos Estados Unidos.

Entre os famosos mandamentos de Collins em seu best-seller, há um especialmente dedicado aos líderes que teimam em sustentar sua visão a despeito dos fatos indicarem outra direção.

Trata-se do capítulo 4, cujo título não podia ser mais direto: “Enfrente a Verdade Nua e Crua (mas não perca a fé)”.

“Sim, liderança tem a ver com visão. Mas liderança tem igualmente a ver com criar um clima em que a verdade prevaleça e se enfrente a realidade nua e crua”, diz Jim Collins.

E qual é a verdade nua e crua no caso da Covid-19?

A verdade é que a pandemia destruirá, sim, centenas de negócios em Alagoas, milhares no Brasil (e milhões em todo mundo) e pouco adianta se lamentar, buscar culpados, buzinar, compartilhar drogas milagrosas por Whatsapp ou pressionar para que um decreto presidencial (sem critérios objetivos) force o fim de medidas de isolamento social.

Isso não significa, claro, que um líder empresarial deva assistir à crise passivamente.

Significa que deve agir (e rápido) ainda com mais vigor nos 20% de ações que realmente possam ser úteis – em vez de desperdiçar tempo com 80% de movimentos que negam a realidade baseados em paixões políticas e argumentos pueris.

No lugar de ameaças e bravatas, é hora de gastar energia, por exemplo, na criação de campanhas que ativem e mobilizem o consumidor despertando nele a importância de adquirir produtos locais.

É hora de rever e acelerar a presença digital da empresa na vida dos consumidores (na verdade, já passou da hora).

É hora de fortalecer as marcas locais com a disseminação de mensagens que estreitem laços e engajem os clientes.

É hora, também, de antecipar decisões duras, cortando gordura (se é que sobrou alguma) nos mais diversos setores, em vez de esperar, ingenuamente, que a tempestade passará rapidamente.

Não, não vai passar rápido – e a retomada da economia será ainda mais lenta enquanto esse tipo de negacionismo (e sabotagem às medidas de isolamento) persistir.

No capítulo do seu livro, Jim Collins, contudo, lembra que encarar a dureza dos fatos não significa perder a fé.

É o que ele chama de “Paradoxo Stockdale”, em alusão ao militar americano que foi preso e torturado durante 8 anos (de 1965 a 1973) na Guerra do Vietnã.

O paradoxo se deve ao fato de Stockdale ter sobrevivido ao aliar duas características aparentemente contraditórias.

O militar não era otimista como os colegas que acreditavam que poderiam forçar a saída do cativeiro em poucos meses – e ficavam devastados quando se davam conta de que isso não aconteceria.

Nem tampouco Stockdale se dava ao luxo de perder a fé de que sairia de lá – ainda que soubesse que isso não aconteceria no próximo Natal.

“Você nunca deve confundir a fé em que você vai vencer no final com a disciplina de enfrentar a realidade nua e crua da atual situação, seja ela qual for”, teria dito Stockdale a Collins.

Uma lição esquecida por muitos que insistem em menosprezar o atual inimigo acreditando que sairão do cativeiro pela força de um decreto inócuo.



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