Arquiteta alagoana que lançou livro na Europa fala sobre a lógica das grotas e favelas de Maceió

Publicado em 29 de Jun de 2020

por Rodrigo Cavalcante

A arquiteta Ana Rosa Chagas Cavalcanti nasceu e morou no bairro do Farol, aos seis anos foi morar na França, na cidade de Marseille (onde o pai, o economista e atual diretor-presidente da Algás, Arnóbio Cavalcanti, foi fazer doutorado), mudou-se adulta com a família para a Ponta Verde -- mas suas pesquisas na Ufal, Alemanha e Holanda (onde fez doutorado) terminaram por levá-la à favela Sururu de Capote, à beira da Lagoa Mundaú, e à Grota doTelégrafo, perto do Jacintinho, onde morou durante quase um ano durante suas pesquisas sobre habitação precária.

O resultado de seus estudos foi publicado na Alemanha no livro “Housing Shaped by Labour: The Architecture of Scarcity in Informal Settlements” (em português, “Moradia Moldada pelo Trabalho: A Arquitetura da Carência em Assentamentos Informais”), lançado em 2018 pela editora Jovis, especializada em temas de urbanismo, e que deve ser lançado no Brasil até o próximo ano.

Na entrevista abaixo a AGENDA A, a arquiteta, que voltou a Maceió durante o período de pandemia, falou de suas experiências nas grotas e favelas da cidade e do que os candidatos a prefeito de Maceió deveriam saber para desfazer preconceitos e promover intervenções que, de fato, façam diferença na vida dos moradores.

AGENDA A: A tese central do seu livro é que, seja nas grotas ou favelas à beira da lagoa, a moradia tem que ser pensada como lugar de trabalho e subsistência, e não apenas como casa. É por isso que a maioria dos projetos de transferência de moradores de favelas para conjuntos habitacionais fracassa?

Exatamente. Não apenas a maioria das pessoas, como até planejadores urbanos, costumam encarar esses assentamentos como um amontoado caótico e aleatório, sem entender que cada um deles tem uma lógica própria moldada pelo tipo de trabalho mais realizado em cada uma dessas regiões. Na Sururu de Capote, por exemplo, o traçado segue a lógica de facilidade ao acesso à coleta, tratamento, transporte e venda do sururu. Nas grotas de Maceió, a casa também é lugar de produção de sucos e alimentos para muitos moradores que vivem da venda desses produtos. Há também inúmeros pequenos comércios e serviços de cabelereiro, manicure e até creches informais. Mesmo entre os moradores que trabalham com carteira assinada como porteiros e faxineiros em prédios de bairros vizinhos, o local de moradia termina sendo também decisivo para serviços extras que ajudam a complementar a renda.

Ou seja, transferir simplesmente essas pessoas para conjuntos habitacionais com casas melhor equipadas, mas distantes de onde elas podem ganhar a sobrevivência, termina não resolvendo o problema…

Sim, porque apesar de saneamento ser essencial, transferir essas pessoas para conjuntos habitacionais padronizados com banheiro e até um pequeno jardim, mas distantes às vezes 20 quilômetros de onde elas moravam, é pensar em uma ideia de “lar” totalmente em descompasso com as necessidades primárias de sobrevivência dessas pessoas. Para quem luta pela sobrevivência física, o trabalho é uma prioridade que supera os padrões estéticos, de conforto e de higiene com os quais as práticas arquitetônicas atuais costumam se preocupar. Minhas pesquisas e vivência mostram que quando o trabalho não é levado em conta como variável essencial no projeto, qualquer intervenção nasce fadada ao fracasso. 

E quais são as melhores intervenções possíveis nessas regiões?

Um bom começo é levar em conta que o direito à moradia e ao trabalho estão integrados. Com base nessa premissa, o olhar sobre a habitação já muda. O que é mais importante para quem sobrevive da pesca? Uma casa bonita a 20 quilômetros do mar ou da lagoa, ou uma moradia próxima do lugar de pesca com passarela ou um deck que melhore seu acesso ao trabalho? Será que, anexo ao conjunto habitacional de pescadores, não deveria haver uma balança para a venda de peixe? Mas isso não será descoberto em projetos desenhados no computador por quem nunca viveu na região. Para entender essa dinâmica,  é preciso ir ao local, conversar com os moradores, envolvê-los no projeto desde o nascedouro. Porque, ao contrário da ideia pré-concebida que as pessoas fazem, cada local tem uma dinâmica própria. E nada substitui a vivência, o diálogo e a integração da comunidade no projeto. Essa crença genérica de que as grotas e favelas são todas iguais é, na verdade, um preconceito de quem não conhece a vida nessas regiões.

E como você teve acesso a essas comunidades? É verdade que chegou a se mudar para uma das grotas de Maceió?

Quando iniciei minha pesquisa como trabalho de conclusão de curso de graduação da Ufal, meu acesso a Sururu de Capote, por exemplo, se deu graças ao então presidente da Associação dos Pescadores, João Honorato, e líderes comunitários. Além de aprender muito nesse período com grandes professoras da Ufal, como minha orientadora Taís Normande e outras professoras de Urbanismo como Regina Coeli e Regina Dulce, aprendi muito também com esses moradores.  Mas não cheguei a morar na Sururu de Capote, apesar de passar várias horas por semana lá pesquisando o cotidiano,  mapeando os canais de acesso e ouvindo as pessoas seguindo um método mais antropológico que adotei na pesquisa. Foi somente após voltar de uma temporada na Alemanha, onde fui convidada a fazer parte de um grupo de pesquisas da Universidade de Hamburgo, que voltei a Maceió e aluguei um quarto no meio da chamada Grota do Antigo Telégrafo (próximo do Hipermercado Extra), para dar continuidade às minhas pesquisas.  

Como estudante da classe média alagoana, seus pais ficaram preocupados? O que aprendeu lá?

A princípio, as pessoas ficam preocupadas, naturalmente, mas logo percebem que boa parte dessa preocupação deve-se ao estigma e a uma visão deturpada desses locais apenas como centros de violência. Na verdade, quem vive por lá sabe que a maioria é formada de gente trabalhadora que, como meus vizinhos, acordavam antes das seis da manhã para preparar sucos para serem vendidos. Enfim,  não quero aqui romantizar ou dizer que essas regiões não estão, sim, mais vulneráveis à violência, inclusive à violência policial, mas a ideia de que a criminalidade define esses locais é errada e preconceituosa. Há criminalidade em toda a parte e as pessoas que moram nesses locais, a maioria vinda de cidades do interior de Alagoas sem condições de moradia, apenas procuram morar próximo a locais onde possam obter uma renda. Seja dentro da comunidade vendendo algo ou prestando serviços em edifícios ou shoppings nas proximidades. Mas, como disse, cada região tem sua dinâmica. 

Ou seja, em vez de olhar para esses locais apenas sob a ótica da criminalidade, os candidatos a prefeito de Maceió deveriam olhar para a vocação econômica do tipo da região?

Sim, há comunidades, como a Sururu de Capote, onde os moradores são dependentes da coleta do marisco, outras voltadas para a pesca marítima, outras para o artesanato, outras são grandes centros de serviços e comércio popular, enfim, cada comunidade tem sua história e essência. E os gestores públicos e líderes políticos precisam urgentemente desfazer essa ideia da comunidade pobre como local de criminosos ou ociosos. É preciso também acabar com essa visão paternalista do gestor que, numa atitude supostamente heroica, quer retirar as pessoas desses locais para transferi-las para conjuntos habitacionais distantes. É preciso ir a campo, dialogar com essas pessoas, acompanhar o dia a dia dela para além dos rótulos e clichês das campanhas eleitorais para construir projetos de interesse de todos, e não de um setor ou de uma construtora. E essa visão não é válida apenas para essas comunidades, como para todas as regiões de Maceió. A ideia modernista de zonear as cidades por função caducou. De certa forma foi esse modelo, por exemplo, que tornou o Centro de Maceió num deserto à noite, assim como o bairro do Jaraguá. 

Ou seja, esse incentivo à multiplicidade de atividades de um mesmo bairro, o chamado uso misto, é importante para todos os bairros...

Sim. Veja, por exemplo, o impacto positivo de alguns poucos edifícios na Ponta Verde planejados para que o térreo tenha espaços destinados a lojas e serviços, a chamada fachada mista, que dá mais vida, movimento e também reforça a segurança desses locais. Quando as pessoas moravam no Centro de Maceió, ele era bem mais seguro. 

É a clássica ideia da escritora e ativista Jane Jacobs (1916-2016) de que a segurança das ruas e das calçadas não é mantida  só pela polícia, mas pelos moradores e lojistas que ficam de olho no bairro?

Exatamente, a diversidade de atividades em um mesmo bairro, com residências, centros comerciais e escolas melhora não apenas a segurança, como evita grandes problemas de transporte e deslocamento urbano. Precisamos reintegrar as pessoas não apenas ao Jaraguá, mas ao nosso Centro e arredores,  e não abandonar a cidade para morar em regiões cada vez mais distantes. E isso vale tanto para o vendedor de sururu quanto para um professor universitário que poderia, por exemplo, dar aulas numa faculdade no Jaraguá e morar em um edifício residencial no mesmo bairro. Não há como manter um bairro como o Jaraguá vivo se não houver mais pessoas morando lá. A ideia de repartir a cidade em setores residenciais, comerciais, universitários, morreu. A vida na cidade depende da diversidade, de integração, e é com esse olhar que deveríamos fazer qualquer projeto em Maceió.





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