Alagoas, Quinta, 28 de Maio de 2020
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“No pós-crise, destinos de sol e mar como AL serão mais desejados”, diz líder do Maceió Convention

Publicado em 17 de Abril de 2020

por Rodrigo Cavalcante

Estava tudo certo: 2020 seria o ano em que Alagoas daria o primeiro passo para a internacionalização do seu turismo com o anúncio dos primeiros voos regulares diretos Lisboa-Maceió-Lisboa, a partir de junho, pela companhia aérea portuguesa TAP.

Ainda que a TAP não tenha cancelado oficialmente o início da sua operação em Alagoas, tudo indica que ela será adiada, em meio à pandemia que detonou o momento mais duro da história recente do turismo global – somente em Alagoas, a hotelaria estima que toda a cadeia do turismo deve perder R$ 1,5 bilhão.

Em meio à pandemia, será que é possível antever tendências de como será a retomada do setor? E como Alagoas deveria se posicionar?

“Tanto pelo dólar alto quanto pelo perfil dessa crise, tudo indica que o turismo doméstico e de sol e mar deve ser um dos mais procurados na retomada”, diz Glênio Cedrim, presidente do Maceió Convention & Visitors Bureau (MC&VB), e empresário à frente da rede hoteleira Tropicalis. “E Maceió deveria aproveitar esse momento para qualificar ainda melhor a cidade para se reposicionar quando essa crise passar”. 

Confira abaixo entrevista:

AGENDA A: No ano em que Alagoas daria seu primeiro passo para internacionalização do seu turismo, eis que o coronavírus bloqueia o turismo global. Quando e como deve ser a retomada?

A retomada geral só se dará, claro, quando a população contar com um protocolo médico que garanta ao menos que a doença não é uma possível sentença de morte. E isso deve acontecer, ao meu ver, nos próximos 60 dias. 

Essa é uma estimativa ou uma esperança?

 Acredito que uma estimativa razoável e racional. Até porque, observe, não estou falando que em 60 dias será testada uma vacina contra o vírus, algo que, na melhor das hipóteses, poderia ocorrer no início do próximo ano. Estou falando de um protocolo de medicamentos e outros tratamentos que deem segurança de que o vírus não é uma sentença. No dia seguinte a esse protocolo, acredito que começa a retomada, assim como ocorreu com outras epidemias. 

Essa pandemia, contudo, não afetou apenas o corpo, mas o bolso da população. Isso não dificultará ainda mais uma retomada esse ano?

Por um lado, sim, muitas pessoas que perderam empregos e ganhos terão que adiar seus planos. Por outro, o dólar alto e a demanda reprimida para sair de casa após esse longo período deve impulsionar o turismo doméstico, pelo valor e tempo menor de voo. Além disso, acredito que os destinos de sol e mar, com mais programas ao ar livre, serão os mais procurados na retomada. Se esse protocolo vier a ser implantado, acredito que a partir de meados de agosto começa a retomada. Se demorar um pouco mais, a partir de setembro. Boa parte das remarcações das reservas de abril e maio, que estavam com um bom desempenho, foi transferida para setembro, outubro e novembro, o que pode representar uma retomada, quem sabe, de 70% de ocupação já em outubro. Além disso, há um calendário de grandes congressos marcados para o Estado nesse período que, se tudo correr bem, não devem ser desmarcados.  Para isso, contudo, além de contarmos com um protocolo de tratamento do coronavírus, teremos que contar com medidas de incentivo para recuperação mais rápida da malha aérea.

Que medidas seriam mais eficazes?

Além de medidas de linhas de crédito especiais no Governo Federal, aqui no Estado, uma medida importante, e já em articulação, é a redução a quase zero do QAV (Querosene de Aviação). O governo desde o ano passado vem tomando medidas importantes nesse sentido, reduzindo de 12% para 5% o ICMS sobre o QAV, e acreditamos que podemos chegar a zero de cobrança nesse período de retomada. Essa redução, somada à queda no preço do petróleo, que também ajuda a baixa o preço do QAV, somada a uma maior disponibilidade de aeronaves em função da menor demanda internacional, pode ser utilizada para impulsionar ainda mais voss para destinos como o nosso. Além disso, temos certeza que a chegada do grupo espanhol Aena na gestão do Aeroporto Zumbi dos Palmares dará uma nova dinâmica na atração de novos voos para o Estado. Enfim, o ritmo da retomada está diretamente ligada à recuperação da malha aérea e mais oferta de voos, até para reduzir o valor das passagens, que vinha se tornando um problema para o turismo no Estado nos últimos meses.  

Esse aumento teve impacto direto na redução do valor da diária média no Estado, não foi?

Sim, porque só o aéreo tomava 50% do valor dos pacotes para Alagoas. E após a saída da Avianca, o valor médio das tarifas subiu a preços quase impraticáveis, o que fez da tarifa um entrave. Sem a recuperação da malha aérea com valores razoáveis, a retomada será bem mais lenta. Mas acredito que tanto o Ministério do Turismo quanto os governos Estaduais tomarão todas as medidas possíveis para que o setor aéreo não seja um entrave para a retomada. Esse é o momento, afinal, de valorizar o turismo interno, o consumo do produto local, até para geração de emprego e renda essenciais para recuperarmos toda a economia.  

Há quem acredite que, como uma grande parcela da população deve evitar viagens aéreas, seria importante também reforçar estratégias para captar turistas de Estados vizinhos. Isso faz sentido?

Pode ser importante, mas para o turismo de lazer, por exemplo, isso poderia, talvez, representar um acréscimo de 10% no volume. Claro que, num momento como esse, um incremento de 10% não pode ser desprezado. Mas, sem o retorno de voos, nosso turismo não sobrevive. Cerca de 50% da nossa ocupação hoteleira, por exemplo, vem do Estado de São Paulo.

Daí a importância da decisão conjunta de fechar os hotéis em Alagoas no momento em que São Paulo se tornava o epicentro da crise?

Sim, foi uma medida essencial. E foi tomada pela hotelaria local de forma muito ágil. Se o fluxo de turistas de São Paulo não fosse cortado naquele momento, com a rapidez e eficiência com que foi cortado, provavelmente iríamos estar com um número bem maior de infectados, assim como ocorreu em Recife e Fortaleza, por exemplo, que recebem um fluxo grande de turistas nacionais e internacionais.

E o início da internacionalização do turismo em Alagoas, fica adiada para quando?

Que eu saiba, a TAP ainda não cancelou o início dos voos. Mas ainda que confirme o cancelamento, estávamos ainda no início de um projeto piloto de internacionalização. Um projeto essencial, sem dúvida, para o Estado, e que será retomado, mas cujo impacto na hotelaria, por exemplo, não seria ainda tão representativo esse ano.  Como esses projetos são de longa duração, tenho certeza de que será retomado com ainda mais força. Até porque, para receber um fluxo cada vez maior de visitantes de outros países em nossa capital, teremos que acelerar o processo de qualificação do turismo em nossa cidade.

O que o Estado deveria fazer agora para se preparar para a retomada?  

Não só o Estado, como a Prefeitura, deveriam acelerar uma série de medidas para a qualificação do turismo. Nem preciso repetir, que a prioridade absoluta para um destino como nosso é saneamento, saneamento e saneamento. Felizmente, o governo tem buscado recursos para projetos de saneamento não apenas de Maceió, mas de várias cidades do Estado. Mas podemos e devemos fazer muito mais. Em Maceió, por exemplo, precisamos acelerar a qualificação da orla com ordenamento de ambulantes, melhoria da estrutura das feiras de artesanato, dos jangadeiros, das vans de passeios, enfim, qualificar todos os serviços. Não se trata de enlatar o nosso turismo, não somos a Disney. Trata-se de garantir que um turista de um Estado vizinho que economizou para comprar um pacote ou um turista europeu que atravessou o oceano não se depare com línguas-sujas, serviços sem segurança de transporte, sujeira na praia. Esse é o dever de casa básico que terá que ser acelerado caso queiramos, de fato, estar entre os primeiros destinos na retomada pós-coronavírus. E teremos que fazer muito mais se quisermos consolidar Alagoas como destino internacional. O importante, ao meu ver, é que passos essenciais já foram dados nesse sentido, como o esforço do governo para atrair novos voos locais e internacionais e promover o destino. A crise, afinal, passará. Até lá, não temos tempo a perder para acelerarmos a qualificação de nosso segmento. Até porque ele será decisivo para geração de renda não apenas da hotelaria ou de restaurantes, mas de toda uma cadeia formada por milhares de alagoanos.


 

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