Em Maceió para gravação de clipe, Ney Matogrosso diz que país está “voltando a ser careta”

Publicado em 10 de Jul de 2017

Por Rodrigo Cavalcante

O senhor Ney de Souza Pereira completa 76 anos no próximo primeiro de agosto.

Destes, por pelo menos 46 anos foi mais conhecido como Ney Matogrosso, um dos mais respeitados e ousados intérpretes da música popular brasileira.

Após desembarcar em Maceió nesta segunda (10) para participar das filmagens de “Rumos e Rumores”, clipe da música homônima do artista pernambucano radicado em Maceió Victor Pirralho (filmado pela produtora Panan Filmes com recursos do edital audiovisual da Prefeitura), o artista falou à AGENDA A sobre sua parceria com artistas alagoanos, a hipocrisia da ascensão do politicamente correto e de como o Brasil está conseguindo ficar mais careta do que no tempo em que começou a carreira em plena ditadura. 

AGENDA A: Você voltou a Maceió para participar do clipe do Vitor Pirralho, de quem já gravou a música Tupi Fusão, e  há poucos anos atrás já participou de um clipe do alagoano Junior Almeida, de quem gravou uma Cor do Desejo. Como você descobriu os dois artistas em Alagoas?

Ney Matogrosso: Foram duas situações diferentes. Conheci Junior Almeida durante uma apresentação minha aqui em Maceió do show Inclassificáveis, quando ele me deu um CD. Lembro que fui em seguida a São Luís do Maranhão e, como fiquei boa parte do tempo lá trancado no hotel porque chovia muito, pude ouvir o trabalho dele com calma. Achei que a música dele tinha tudo a ver com o repertório do disco que estava preparando, Beijo Bandido, e liguei para ele dizendo que gravaria Cor do Desejo. Depois, fiz a participação no álbum dele Memória da Flor. Já o Vitor (Pirralho) conheci de outra maneira. Li uma reportagem sobre ele em um jornal aqui em Maceió, que falava do trabalho Pau Brasil, achei muito interessante e pedi à produção local, a Sue Chamusca, para conhecer o trabalho. Foi aí que o próprio Vitor me trouxe pessoalmente o CD e, mais tarde, terminei gravando Tupi Fusão (veja vídeo abaixo). em que relutei em cantar forró, por achar que não tinha direito por não ser aqui do Nordeste, mas vi que isso era bobagem porque sou, afinal, um cantor brasileiro. Por onde passo, recebo gravações de artistas. Nem sempre ouço instantaneamente, mas, quando me interesso e descubro afinidades com o trabalho que estou fazendo, vou atrás sem preconceitos nem com gênero ou idade, como foi o caso aqui. 

Por falar em preconceito, nos anos 1970, você foi um dos artistas mais ousados do país não apenas musicalmente, como pela exposição do corpo e da sexualidade em pleno regime militar. Quatro décadas depois, o que melhorou ou não em relação ao preconceito?   

Acredito que nos últimos anos o país está retrocedendo, encaretando.  E acho que isso se deve, em grande parte, à influência da religião na política, principalmente com a ascensão da chamada bancada evangélica no Congresso, que não entende que o Estado é laico e que cada um tem a liberdade de escolher o que quer ser. Essa é a diferença do preconceito hoje, que tem por base a religião na política. Mas, felizmente, e paradoxalmente, estamos vendo também a ascensão de uma nova cena trans reagindo contra a caretice e se impondo cada vez mais para garantir que as pessoas possam existir do jeito que elas são, sem deixar que ninguém mande ou dite como um ser humano deve viver. Da minha parte, continuo livre, tocando o meu barco como se nada houvera. Não vou caminhar para trás e nem vou perder o direito de ser quem eu sou em função da crença religiosa fundamentalista de um grupo. Acho ridículo preconceito de qualquer forma, ainda que disfarçado de uma linguagem politicamente correta.

Sobre o politicamente correto, você nunca pareceu se incomodar com paródias nada politicamente corretas de suas performances feitas, por exemplo, no programa Os Trapalhões. Como você realmente encarava aquelas paródias e como avalia a cobrança pelo politicamente correto nos dias de hoje?

Sinceramente, achava o máximo e ria muito com as brincadeiras debochadas nos Trapalhões. Acho, sinceramente, muito chato essa coisa do politicamente correto não aceitar o deboche, a brincadeira e o humor. Até porque o problema do politicamente correto é que uma pessoa pode eliminar o preconceito na linguagem, mas permanecer extremamente preconceituosa internamente, o que resulta em uma hipocrisia ainda maior. E aí o resultado é um mundo mais chato e hipócrita.  

 


Por Rodrigo Cavalcante


O senhor Ney de Souza Pereira completa 76 anos no próximo primeiro de agosto.


Destes, por pelo menos 46 anos, foi mais conhecido como Ney Mato Grosso, um dos mais respeitados e ousados intérpretes da música popular brasileira.


Após desembarcar em Maceió nesta segunda (10) para participar das filmagens de “Rumos e Rumores”, clipe da música homônima do alagoano Victor Pirralho (filmado pela produtora Panam Filmes com recursos do edital audiovisual da Prefeitura), o artista falou à AGENDA A sobre sua parceria com artistas alagoanos, a hipocrisia da ascensão do politicamente correto e de como o Brasil está conseguindo ficar mais careta do que no tempo em que começou a carreira em plena ditadura.


AGENDA A: Você voltou a Maceió para participar do clipe do Vitor Pirralho, de quem já gravou a música Tupifusão, e  há poucos anos atrás já participou de um clipe do também alagoano Junior Almeida, de quem gravou uma Cor do Desejo. Como você descobriu os dois artistas alagoanos?


Ney Mato Grosso: Foram duas situações diferentes. Conheci Junior Almeida durante uma apresentação minha aqui em Maceió do show Inclassificáveis, quando ele me deu um CD. Lembro que fui em seguida a São Luís do Maranhão e, como fiquei boa parte do tempo lá trancado no hotel porque chovia muito, pude ouvir o trabalho dele com calma. Achei que a música dele tinha tudo a ver com o repertório do disco que estava preparando, Beijo Bandido, e liguei para ele dizendo que gravaria Cor do Desejo. Depois, fiz a participação no disco dele Memória da Flor. Já o Vitor (Pirralho) conheci de outra maneira. Li uma reportagem sobre ele em um jornal aqui em Maceió, que falava do trabalho Pau Brasil, achei muito interessante e pedi à produção local, a Sue Chamusca, para conhecer o trabalho. Foi aí que o próprio Vitor me trouxe pessoalmente o CD e, mais tarde, terminei gravando Tupifusão.


Prestes a completar 76 anos, como você se disciplina para manter o radar atento a novos artistas?

Não é algo disciplinado não, é natural, não chego a ter uma preocupação específica.  Nunca fui cantor de um departamento, transito entre todas as coisas e gêneros sem preconceito, sempre fui assim, do rock ao samba. Houve um tempo, por exemplo, em que relutei em cantar forró, por achar que não tinha direito por não ser aqui do Nordeste, mas vi que isso era bobagem porque sou, afinal, um cantor brasileiro. Por onde passo, recebo gravações de artistas. Nem sempre ouço instantaneamente, mas, quando me interesso e descubro afinidades com o trabalho que estou fazendo, vou atrás sem preconceitos nem com gênero ou idade, como foi o caso aqui.


Por falar em preconceito, nos anos 1970, você foi um dos artistas mais ousados do país não apenas musicalmente, como pela exposição do corpo e da sexualidade em pleno regime militar. Quatro décadas depois, o que melhorou ou não em relação ao preconceito?    

Acredito que nos últimos anos o país está retrocedendo, encaretando.  E acho que isso se deve, em grande parte, à influência da religião na política, principalmente com a ascensão das bancadas evangélicas no Congresso, que não entendem que o Estado é laico e que cada um tem a liberdade de escolher o que quer ser. Essa é a diferença do preconceito hoje, que tem por base a religião na política. Mas, felizmente, e paradoxalmente, estamos vendo também a ascensão de uma nova cena trans reagindo contra a caretice e se impondo cada vez mais para garantir que as pessoas possam existir do jeito que elas são, sem deixar que ninguém mande ou dite como um ser humano deve viver. Da minha parte, continuo livre, tocando o meu barco como se nada houvera. Não vou caminhar para trás e nem vou perder o direito de ser quem eu sou em função da crença religiosa fundamentalista de um grupo. Acho ridículo preconceito de qualquer forma, ainda que disfarçado de uma linguagem politicamente correta.


Sobre o politicamente correto, você nunca pareceu se incomodar com paródias nada politicamente corretas de suas performances feitas, por exemplo, no programa Os Trapalhões. Como você realmente encarava aquelas paródias e como avalia a cobrança pelo politicamente correto nos dias de hoje?

Sinceramente, achava o máximo e ria muito com as brincadeiras debochadas nos Trapalhões. Acho, sinceramente, muito chato essa coisa do politicamente correto não aceitar o deboche, a brincadeira e o humor. Até porque o problema do politicamente correto é que uma pessoa pode eliminar o preconceito na linguagem, mas permanecer extremamente preconceituosa internamente, o que resulta em uma hipocrisia ainda maior. E aí o resultado é um mundo mais chato e hipócrita.   



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