Cacá Diegues: “Alagoas precisa apoiar jovens talentos antes deles serem reconhecidos nacionalmente”

Publicado em 14 de Novembro de 2017

Um dos fundadores do Cinema Novo e um dos mais importantes cineastas do país, o alagoano Cacá Diegues recebe nesta terça, aos 77 anos, no Teatro Deodoro, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal, via proposta do professor Edson Bezerra).   

Antes de receber o título, o cineasta de clássicos nacionais como Cinco Vezes Favela, Ganga Zumba e Bye-Bye Brasil, indicado este ano para integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (que elege os vencedores do Oscar), falou à AGENDA A sobre a presença de Alagoas em seu trabalho, a influência do pai, Manuel Diegues Júnior, e de como o Estado deve incentivar uma nova geração de cineastas talentosos em vez de esperar que eles sejam reconhecidos por produtores de outros Estados.

Você saiu de Alagoas com seis anos de idade. Quais as principais lembranças do seu Estado?

Apesar de ter partido ainda criança para morar com meus pais no Rio de Janeiro, costumava voltar para passar as férias. Nunca perdi o contato com o Estado. Além disso, mesmo após a mudança para Rio de Janeiro, lembro que nossa casa era uma espécie de embaixada alagoana, um ponto de encontro de alagoanos. São várias as lembranças dessa época, como os banhos de mar na Pajuçara. O fato é que Alagoas sempre esteve presente, inclusive no meu trabalho. Tanto como cenário de filmes (como Deus é Brasileiro e Bye-Bye Brasil), quanto em textos que tratam das nossas contradições.  

Qual a influência que seu pai, o antropólogo Manuel Diegues Júnior (autor de O Banguê das Alagoas, um dos clássicos sobre a formação do Estado), teve na sua formação e no seu trabalho?

Meu pai teve uma influência decisiva na minha formação. Graças a ele li Jorge Amado aos 11 anos, assim como outros autores nacionais importantes. Às vezes, ele me indicava a leitura de uma crônica de Machado de Assis antes de ir ao trabalho e avisava que, quando voltasse, iria cobrar que eu comentasse. E ele cobrava mesmo. Além disso, aprendi muito também ao acompanhá-lo em viagens com seu olhar atento de antropólogo no registro fotográfico de obras de arte popular muito antes delas serem valorizadas comercialmente.

Após décadas de vários retornos ao Estado, como você vê Alagoas hoje? Otimista quanto ao futuro ou...

Como não sou pessimista, tendo a achar que tanto Alagoas quanto o Brasil podem melhorar nos próximos anos, apesar da crise atual. Alagoas tem talentos em várias áreas, tanto de cineastas como René Guerra, que está realizando um filme importante atualmente por uma produtora carioca (Serial Kelly, estrelado pela cantora paraense Gavy Amarantos), quanto de toda uma nova geração de jovens inquietos ligados ao audiovisual que precisam ser apoiados. Pernambuco não se transformou nos últimos anos em um centro importante do cinema nacional por geração espontânea. O Estado incentivou a produção dos cineastas locais e agora colhe os frutos deste incentivo. Alagoas precisa fazer o mesmo e não esperar que jovens talentos sejam reconhecidos, assim como o René,  apenas quando já contam com apoio de uma produtora carioca. Esses jovens alagoanos precisam ser apoiados aqui e agora com incentivos locais, é essa atitude que pode fazer a diferença.  



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