Memória: no Dia do Sorvete, conheça a saga do europeu que mudou o padrão dos gelados em Maceió

Publicado em 23 de Setembro de 2019

Nesta segunda (23), Dia do Sorvete, em meio às filas nos quiosques de casquinhas em shoppings de Maceió,  talvez seja difícil para as novas gerações imaginar que o Centro de Maceió, um dia, já foi o centro do que havia de melhor na cidade.

E quando o assunto era o melhor em sorvetes e doces finos, nada supera até hoje o legado da Danúbio, a casa aberta por um imigrante da Europa central, Vilmos Vajas Lelkes (mais alto, à esquerda da foto), que marcou a memória afetiva de milhares de alagoanos.  

Quando Vajas abriu, em 1950, as portas da pastelaria Danúbio em Maceió, a textura, cremosidade e qualidade dos seus sorvetes – assim como de seus famosos “combinados”, em que os gelados eram acompanhados de tortas, saladas de frutas ou outros ingredientes – mudaram o padrão de qualidade da arte dos gelados em Maceió.

Esse padrão era imposto pelo próprio fundador da casa, cuja vida daria um roteiro de filme rodado entre as duas guerras mundiais. Descendente de família húngara e nascido na região de Bratslava (na atual Eslováquia), Vajas cruzou vários países da Europa onde teve a chance de trabalhar em grandes confeitarias, como a tradicional Rotisserie Bianchi, em Milão. Após ter lutado na Guerra Civil Espanhola – onde mais tarde, em Madri, se casaria com sua esposa Maria Luisa -, Vajas embarcou para o Brasil no final da Segunda Guerra, em 1946, para gerenciar uma lanchonete no Rio de Janeiro. Ao receber um convite para comandar a operação de uma fábrica de massas em Maceió (a Brandim, depois Brandini’s), ele desembarcou em Alagoas onde abriria, em 1950, na Praça dos Palmares, no antigo edifício do IAPETC (veja a foto abaixo), a pastelaria Danúbio.

Numa época em que o empreendedorismo era menos um estilo de vida – e mais uma necessidade -, Vilmos Vajas era conhecido por não abrir mão da qualidade dos ingredientes. “Meu pai não admitia usar nada que não fosse de extrema qualidade”, lembra seu filho, Guillermo Vajas, professor aposentado da UFAL, que veio com o pai ainda criança a Maceió. “Fazia questão de importar os pistaches da Itália, por exemplo, por não se conformar com a baixa qualidade dos que eram comercializados por aqui”, diz. Guillermo lembra que a exigência do pai chegava a detalhes como o de, por exemplo, recusar-se a comprar latas de 20 quilos da manteiga Itacolomy – por acreditar que elas não mantinham a mesma qualidade das latas pequenas, que preferia usar. 

Apesar de Maceió à época contar com outras sorveterias, como a Shangai e Primavera, o padrão estabelecido por Vajas logo fez a Danúbio se tornar referência de qualidade na cidade. Não à toa, quando, mais tarde, ele se mudou para Brasília, em 1971, Vajas tornou-se uma espécie de fornecedor oficial de sorvetes do Palácio do Planalto (não só para para as recepções oferecidas pelo governo brasileiro, como também  para recepções oferecidas pelo governo no exterior, quando aviões decolavam de Brasília com caixas dos sorvetes que fabricava).

Antes de se mudar para Brasília, Vilmos Vajas ainda abriria em Maceió, no ano de 1965, na Praça Sinimbu, esquina da Rua da Praia, outro estabelecimento que marcaria gerações de alagoanos: a sorveteria e pizzaria Sorriso, que ele vendeu a empresários sergipanos antes de se mudar para Brasília, onde faleceu em 2002.

E apesar da atual confeitaria Danúbio, no Centro de Maceió, não ter conexão direta com os herdeiros de Vajas em Maceió, ela ao menos preserva no cardápio alguns dos “combinados” criados pelo imigrante europeu naturalizado brasileiro em 1954 - ainda que não possa contar com o mesmo sorvete produzido pelo empreendedor que mudou o padrão dos gelados em Maceió.

PS: Somente após a matéria acima ser postada, o executivo André Vajas, neto de Vilmos Vajas, informou a AGENDA A que, por coincidência, seu avô faria 105 anos exatamente neste 23 de setembro.

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