“Dia do Nordestino reforça clichês e nasceu de sentimento de culpa de São Paulo”, diz pesquisador

Publicado em 08 de Outubro de 2019

por Rodrigo Cavalcante

Autor de livros premiados como “A Invenção do Nordeste e outras Artes”, o paraibano Durval Muniz de Albuquerque Junior é um pesquisador crítico da identidade regionalista que criou o conceito de Nordeste nos anos 1920 - segundo Muniz, como reação à perda da preponderância econômica para o Sudeste do país.

“Por que o carioca, o paulista, o mineiro e o capixaba não precisam celebrar, por exemplo, o dia do Sudestino?”, questiona Muniz, que defende que a imagem de um Nordeste único projetado em todo o país via símbolos arcaicos como o do cangaço precisa ser dissolvido.

E foi exatamente no Dia do Nordestino, em meio à viagem entre sua cidade natal, Campina Grande, e João Pessoa, que ele falou a AGENDA A da sua visão sobre data.

AGENDA A: celebrar o Dia do Nordestino é cair na armadilha de reforçar uma imagem única e arcaica da região. Mas a data não pode ser apropriada também como celebração de uma base cultural comum? 

Os discursos de reforço de identidade nunca surgem por acaso. De onde vem essa necessidade de autoafirmação da nordestinidade, por exemplo, senão de uma própria sensação de inferioridade, de  fragilidade. Por que será que o carioca, o paulista, o mineiro não precisam celebrar o Dia do Sudestino? Não é à toa que a própria criação da data nasceu em São Paulo, derivada, ao que tudo indica (risos), de certo sentimento de culpa diante dos milhões de nordestinos que trabalham e moram na cidade (a data foi oficializada com a lei nº 14.952, da cidade de São Paulo, em 13 de julho de 2009, em meio às comemorações do centenário do poeta cearense Patativa do Assaré).

Você está dizendo que celebrar o Dia do Nordestino é reforçar um complexo de inferioridade?   

Exatamente. A celebração da data não deixa de ser uma forma de compensação. Uma compensação que deriva de uma visão do Nordeste que, ainda no século 21, reforça a imagem de um povo sofredor, mas cordial, do sertanejo que enfrenta a estiagem e a pobreza com um sorriso no rosto, enfim, de um Nordeste inferiorizado. Qualquer discurso vigoroso de reforço de identidade é problemático. É mais um sintoma e reação de um sentimento de fragilidade do que autoestima. Por que, por exemplo, o paulista não precisa celebrar essa identidade regional?

Mas São Paulo, por exemplo, celebrou sua identidade reforçando o mito dos Bandeirantes?

Exatamente. E observe essa autoafirmação nasceu exatamente para preencher uma lacuna, um sentimento de inferioridade histórica por não ter tido o papel inicial de liderança na formação do Brasil que tiveram outros Estados como Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, centros econômicos muito mais importantes no início da colonização. Em meio à falta de elementos históricos que mostrassem um papel de liderança nesse período, reforçou-se então o mito dos Bandeirantes como o dos formadores do Brasil. Hoje, mais seguro de sua posição de preponderância, um paulistano não precisa, por exemplo, colocar adesivos no automóvel com dizeres como “Orgulho de ser paulistano”.

Em meio a falas preconceituosas sobre moradores dos Estados do Nordeste ditas até pelo presidente, os governadores da região estão reforçando laços políticos e administrativos. Nem isso você enxerga de forma positiva?

 Acho que há duas vertentes nesse movimento. A que vejo de forma positiva é a de uma maior integração administrativa. Afinal, medidas como criação de um consórcio para realizar compras de forma conjunta, barateando o custo de investimentos em infraestrutura e definindo planos de desenvolvimento integrado, são medidas, sim, altamente importantes. O que não vejo com bons olhos é o uso político do reforço da identidade regional que sempre foi uma marca dessa ideia equivocada do Nordeste como um bolsão do atraso do país. O Nordeste não é um só. Cada Estado tem sua identidade com processos de mudanças e de modernização. Esse conceito do Nordeste que nasce da saudade de um tempo arcaico, da Casa Grande, de uma pretensa harmonia social em que cada um deve ficar feliz no seu lugar, enfim, esse nordeste conservador, precisa, definitivamente, ser dissolvido. E, na minha visão, o Dia do Nordestino termina exatamente sendo mais um reforço conservador desse conceito de Nordeste. Um conceito de Nordeste que precisa ser, definitivamente, dissolvido.

 

 

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