O ataque à memória de Zumbi pela Fundação Palmares – e a melhor resposta que os alagoanos podem dar

Publicado em 22 de Maio de 2020

por Rodrigo Cavalcante

É verdade: sabe-se muito pouco sobre a vida de Zumbi dos Palmares.

Mas os historiadores sabem o suficiente, com base em documentos da própria Coroa Portuguesa, para comprovar a importância dele e de Palmares como maior centro de quilombos e resistência negra da história da América Colonial.

Daí a reação de pesquisadores após o atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, ter intensificado a estratégia de tentar desqualificar um dos líderes do Quilombo que dá nome à instituição criada justamente para promover e preservar valores históricos e culturais da influência negra no Brasil.

No último dia 13 de maio, Dia da Abolição, o site da instituição foi usado para publicar uma série de artigos colocando até em xeque a figura de Zumbi dos Palmares.

Com o título “Zumbi e a Consciência Negra, Existem de Verdade?”, um dos artigos, assinado pelo jornalista e professor Luiz Gustavo dos Santos Chrispino, ataca o que considera o “endeusamento de Zumbi”, coloca em xeque a existência dele e diz que esse endeusamento seria parte de uma manobra da esquerda para “separar a população em nichos pelos partidários da transformação do Brasil num país comunista”.

Ainda que Zumbi, como qualquer outra figura histórica, tenha sido apropriada, sim, de várias maneiras por diversos grupos políticos, o artifo não é baseado, por exemplo, em nenhum contraponto histórico factual.

Ao ser questionado pelo jornal Folha de S. Paulo sobre a existência dos documentos que comprovam a existência do líder, o professor disse que se baseou “nos livros que tinha” porque “foi impedido de ir até a Biblioteca Nacional para fazer uma pesquisa mais aprofundada por causa da atual pandemia”. Ao jornal, Chrispino ainda teria afirmado que a obra “não se pretendia acadêmica” e só ilustra sua opinião sobre o assunto.

Na mesma matéria da Folha de S. Paulo, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz reforça que não há dúvidas de que Zumbi dos Palmares não apenas existiu, sim, como liderou o maior conglomerado de quilombos de resistência à escravidão da América Colonial.

Aqui em Alagoas, terra do Zumbi e do Quilombo dos Palmares, não se viu ainda nenhuma manifestação oficial à Fundação - mesmo constatando que o governador tem outras prioridades em tempos de pandemia, ao menos a Secretaria Estadual de Cultura deveria, sim, se posicionar.

Independentemente da necessária reação oficial, talvez a melhor resposta que os alagoanos possam dar a esse tipo de ataque é celebrar, reforçar a memória e buscar saber ainda mais sobre o Quilombo dos Palmares.

Afinal, a tentativa de desqualificar Zumbi dos Palmares com base em artigos superficiais tem gerado, paradoxalmente, ainda mais interesse na figura do líder negro, como prova a matéria da Folha de S. Paulo já citada com o título “Saiba quem foi Zumbi dos Palmares, novo pivô da guerra cultural bolsonarista” (assinantes da Folha podem ler aqui).

Ou seja: não há melhor momento para Alagoas fortalecer e valorizar, por exemplo, o Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em União dos Palmares, com potencial para se transformar num polo de visitação internacional como epicentro no passado do maior centro de quilombos das Américas.

Passada a crise da Covid-19, que tal, em vez de apenas rebater o óbvio, buscar apoio para promover a realização de um grande evento anual de cultura ou festival de música afro em plena Serra da Barriga, atraindo milhares de visitantes e turistas do mundo inteiro?

Até porque, a memória de Palmares resistiu por mais de três séculos.

Já a atual gestão da Fundação Palmares, como indica a fugaz passagem de Regina Duarte, talvez não dure mais do que uma minissérie.


 

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