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Nesta sexta: Manifesto Sururu faz 15 anos com música, leitura e homenagem a Dirceu Lindoso

Publicado em 18 de Outubro de 2019

por Rodrigo Cavalcante

É fácil tratar Edson Bezerra como personagem “folclórico”.

Professor da Uneal e misto de músico, poeta, antropólogo, sociólogo, articulador cultural Edson, que relança nesta sexta, às 20h, no Zeppelin Bar (na rua por trás das Lojas Americanas da Avenida da Paz), seu texto “Manifesto Sururu”, é figura presente em quase todos os eventos culturais com um olhar inquieto, insatisfeito, incômodo, a um só tempo apaixonado e agoniado diante do que vê – e do que, na sua visão, os alagoanos insistem em não enxergar.

Lá pelos idos de 2004, num momento em que o Governo buscava reposicionar a imagem do Estado com o pomposo slogan “Terra dos Marechais”, Edson, inspirado nas obras de Octávio Brandão, Jorge de Lima, Dirceu Lindoso, Sávio de Almeida e em figuras até então pouco lembradas como Tia Marcelina, decidiu publicar na imprensa seu “Manifesto Sururu”. Um manifesto para que os Alagoanos voltassem a enxergar o que já não queriam ver: a conexão com a cultura negra e lagunar.

Afinal, desde meados dos anos 1970, quando a classe média se deslocou orgulhosa em direção ao novo eixo Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca, a cidade foi apagando seus últimos vínculos culturais e turísticos da Maceió lagunar do Bar das Ostras, do Bebedouro, da Levada. Não demorou para quase toda a região da lagoa virar “periferia” e boa parte dos maceioenses perder até conexão com o próprio Centro da capital, dando as costas, por tabela, à Praia da Avenida, ao Jaraguá, vestígios da Maceió de outrora.

Eis que surge o Manifesto Sururu e lembra que precisamos voltar a ver a lagoa. E, com a lagoa, a cultura popular, negra, dos batuques abafados da tia Marcelina (não à toa o movimento do Xangô Rezado Alto nasceria e ganharia força a partir de então).

Há 15 anos, quando publicado nos jornais do Estado, houve quem lesse o manifesto com ironia (espécie de simulacro tardio de um mangue beat caeté) ou com paternalismo condescendente, enxergando “certo valor” no texto, em meio ao que consideravam excentricidades daquele professor “folclórico”.

Foi só quando um dos historiadores mais importantes de Alagoas, Dirceu Lindoso (que faleceu na madrugada de terça passada, aos 87 anos), escreveu sobre o manifesto, que muitos dos que sorriram começaram a prestar atenção.

“Um manifesto cultural não é coisa que passa. Que facilmente passa. Um manifesto, ainda que cultural, é um protesto, uma raiva social contida, e que, de repente, como uma árvore, brota seus ramos do profundo da terra, onde se pensava que árvore nenhuma existisse”, escreveu Dirceu no artigo "A Propósito de um Manifesto Sururu" (leia na íntegra aqui). “E um manifesto é uma bomba, um coquetel molotov, jogado propositadamente numa cultura. Foi o que fez este jovem professor universitário, jogando seu Manifesto Sururu na cara da estupidez alagoana. Abriu, sem pensar, o baú das circunstâncias, esse precioso baú das inconveniências”.

Após a morte de Dirceu, Edson chegou a cogitar em cancelar o evento de relançamento do Manifesto nesta sexta (18), no Zeppelin Bar, a partir das 20h, que contará com programação musical (canjas de músicos como Júnior Almeida, Basílio Sé, Máclein Carneiro e Nara Cordeiro), releitura do texto (pelo ator José Márcio) e um bate-papo entrevista com o jornalista Rodrigo Cavalcante, editor de AGENDA A. Ao decidir que o evento seria, de certa forma, uma homenagem ao próprio Dirceu, Edson, contudo, decidiu manter o evento.

Dirceu, com certeza, apoiaria a decisão desse professor folclórico, sem aspas, para aqueles que compreendem folclore como o melhor do sabedoria popular.



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