A oratória de Bolsonaro “funciona”? Veja o que diz especialista que vem dar palestra em Maceió

Publicado em 08 de Agosto de 2019

Com mais de 30 livros publicados sobre técnicas de oratória e mais de 30 anos de carreira como um dos mais importantes consultores de executivos, empresários e políticos, Reinaldo Polito tem acompanhado de perto as mudanças no padrão da comunicação pública em tempos de informalidade nas redes sociais.

“Eu mesmo tive que me adaptar e abandonar de vez o terno e a gravata após ter ministrado durante anos cursos na maior empresa de tecnologia do país”, diz Polito, que escreve sobre técnicas de expressão verbal e analisa discursos de governantes e personalidades em sua coluna no portal UOL.

Dias antes de desembarcar em Maceió, onde fará no dia 17 de agosto a palestra “Assim é que se Fala”, no I Workshop Comunicação de Alta Performance e Sucesso Profissional organizado pelo Instituto Carlos Conce (da 8h às 12h30, em uma das salas da rede de cinemas Kinoplex no Maceió Shopping), Polito falou a AGENDA A sobre a oratória de Bolsonaro, de Trump, de Obama - e sobre a diferença entre naturalidade e descuido em redes sociais.

AGENDA A: Para eleitores e aliados, o discurso de Bolsonaro parece agradar pela rudeza, sinceridade e até naturalidade. Já entre seus opositores, ofende como grosseria de um desbocado. Como você, um especialista em técnica de oratória, avalia a retórica do presidente?

Bolsonaro navega numa faixa inaugurada por Trump. Quando Donald Trump ainda era um candidato desacreditado, comecei a escrever sobre seus discursos em minha coluna (no portal UOL) chamando a atenção para a eficácia dele em debates. Está tudo registrado lá, numa época em que muitos acreditavam que era impossível que um candidato que adotava um discurso que soava tosco e agressivo pudesse se eleger presidente dos Estados Unidos. Ganhei até uma aposta contra um amigo após a eleição. Faço esse paralelo porque muita gente no Brasil também achava impossível que um candidato com o comportamento e discurso do Bolsonaro fosse eleito. Mas, assim como Trump, esses discursos radicais e fora da curva atingem o coração de um eleitor que, apesar de nem sempre defender ou apoiar racionalmente aquela causa, apoia internamente. Por isso que Freud dizia que o nosso inconsciente pode receber a mensagem do inconsciente do outro sem que essa mensagem passe, necessariamente, pelo nosso consciente. Quando me perguntam como Trump e Bolsonaro conseguiram vencer as eleições, defendendo ideais aparentemente contrários às opiniões correntes e ao desejo da sociedade, respondo que a resposta está nesse “aparentemente”. Uma  coisa é o que imaginamos ser o desejo das pessoas. Outro, diferente, é o que elas efetivamente querem. Passada a eleição, diria que o problema atual do discurso do Bolsonaro é que ele continua usando a retórica de campanha. Escrevi também sobre o tema na minha coluna (leia aqui). É claro que muitos apoiadores não gostaram da observação. Mas trata-se de uma constatação da forma de um discurso.

Ainda assim, as falas de Trump e Bolsonaro agradam uma parcela enorme de seguidores que parecem preferir a sinceridade de um discurso tosco em contraste a um bem articulado, politicamente correto, mas que soa falso. Em tempos de redes sociais, a naturalidade se tornou mais importante do que a técnica da oratória?    

A naturalidade sempre foi importante, mas, de fato, o que se considera natural hoje em uma apresentação pública é bem diferente do que foi no passado. Décadas atrás, boa parte do público encarava com naturalidade e até admiração uma personalidade que usasse uma fala adornada e cheia de figuras de linguagem. Hoje, alguém que se apresentar assim poderá ser confundido com um extraterrestre. A exigência de objetividade também é muito maior. No tempo de Rui Barbosa, um discurso longo chegava a ser encarado como um momento de entretenimento (risos). Enfim, quem quer aprender a falar bem, precisa se adaptar às constantes mudanças no perfil dos ouvintes. Vou contar aqui algo que nunca contei a ninguém. Anos atrás, após anos ministrando com frequência cursos de expressão verbal em uma das maiores empresas de tecnologia do país, da qual não vou citar o nome, fui chamado pela gestora de Recursos Humanos que educadamente disse que eu era o melhor na minha área, apesar de não estar enquadrado no perfil daquela empresa. Percebi que precisava abandonar de vez o terno e a gravata para me adequar a um ambiente cada vez mais informal. Informalidade, porém, não pode ser confundida com descuido e negligência. 

Você poderia dar exemplos, no campo político e empresarial, de personalidades que conseguem aliar naturalidade, informalidade e conteúdo?

No campo político, sem dúvidas o ex-presidente dos EUA Barack Obama. Ele soube aliar com maestria não apenas técnicas de discurso, como aquelas pausas verbais reflexivas, com conteúdo e emoção. E tudo com naturalidade, até na forma de vestir. Assim que chegou ao Rio, por exemplo, tirou a gravata, transmitindo a mensagem de que se sentia à vontade no Brasil. Naturalidade tem muito a ver com sentir-se à vontade. Não adianta querer apenas usar uma roupa informal se claramente o público percebe que a pessoa não está à vontade.  Enquanto alguns veem naturalidade, por exemplo, no fato de Trump ou Bolsonaro falarem um palavrão vez por outra, na boca de Obama esse palavrão soaria artificial. Já no campo empresarial, acho que a grande referência ainda foi a do legado de Steve Jobs. As apresentações de Jobs transmitiam uma força, naturalidade e espontaneidade, ainda que fossem milimetricamente ensaiadas por ele, um perfeccionista. E isso não é uma contradição. É o caso do artista que, de tanto ensaio, passa a dominar cada gesto e inflexão do seu papel. Esse é o aparente dilema da naturalidade. Para ter controle sobre a expressão verbal e ser o mais natural possível, é preciso se preparar para dominar a técnica.

Serviço

I Workshop Comunicação de Alta Performance e Sucesso Profissional (Instituto Carlos Conce)

Palestras: Assim É Que Se Fala, por Reinaldo Polito/ Habilidades da Comunicação Persuasiva, por Carlos Conce

Data, hora e local: 17 de agosto, das 8h às 12h30, Kinoplex do Maceió Shopping

Ingressos: R$ 107 e R$ 77 (alunos ex-alunos do Instituto Carlos Conce), podem ser adquiridos no próprio instituto.

Mais informações: (82) 3327 7090/ 99499091/996391259



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