Orla de Maceió livre de plástico? Professor da Ufal que publicou na Science diz que meta é viável

Publicado em 13 de Jul de 2021

Professor da Ufal, Robson Santos, e capa da Science: artigo revela impacto da ingestão do plástico por diversas espécies

 

Aos 39 anos, o pesquisador do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Ufal, Robson Santos, entrou este mês para o seleto grupo de pesquisadores brasileiros com artigos publicados na revista norte-americana Science, uma das mais importantes publicações científicas do mundo, cuja edição especial de julho traz como tema de capa o título “Our Plastic Dilema” (O Dilema do Plástico, em tradução livre), com artigos que avaliam o impacto do plástico no meio-ambiente em todo o mundo.

Entre estes artigos, está o texto “A ingestão do plástico como armadilha evolutiva: Em direção a uma compreensão holística”, escrito pelo professor da Ufal em parceria com o pesquisador brasileiro Ryan Andrades (Universidade Federal do Espírito Santo) e pelo argentino Gabriel E. Machovsky (pesquisador das universidades Massey, na Nova Zelândia) -- que apresenta o impacto do material nas cadeias alimentares e em diversas espécies animais.

Na conversa (abaixo) com AGENDA A, o pesquisador fala não apenas sobre o artigo, mas também sobre como Maceió, uma cidade turística conhecida por suas belas praias, poderia se tornar referência nacional por meio de uma campanha para tornar a orla da capital livre da comercialização de plásticos até 2030.

Confira:

AGENDA A: Você é professor da Ufal, mas se formou em Biologia pela Universidade Federal da Paraíba e fez o doutorado na Federal do Espírito Santo, seu Estado Natal. Onde surgiu seu interesse pelo impacto do plástico na vida marinha?

Foi ainda durante o doutorado que decidi pesquisar o impacto da ingestão de plástico por várias espécies de tartarugas marinhas. Durante a pesquisa, conseguimos entender melhor como essa interação era bem mais complexa do que imaginávamos. Descobrimos, por exemplo, que essa ingestão não se dava apenas, como se costumava pensar, pela suposta semelhança dos resíduos de plásticos com águas marinhas e outros seres vivos. Na verdade, outros fatores, como a cor dos resíduos, também se mostraram relevantes (os pesquisadores descobriram, por exemplo, que as tartarugas eram mais atraídas por resíduos de cores mais escuras, pelo contraste com a luz solar). A partir dos dados dessa pesquisa, começamos a entender como a ingestão de plástico provocada por ações humanas afetava a vida não apenas das tartarugas, mas de cadeias alimentares de diversas espécies. 

Como se deu a passagem do estudo das tartarugas marinhas para outras espécies, tema do artigo na Science?

A partir da pesquisa da ingestão do plástico pelas tartarugas, buscamos em seguida pesquisas e artigos sobre o impacto da ingestão do plástico em todos os tipos de organismo. Após formarmos uma base de mais de cinco mil artigos sobre o tema e selecionarmos quais deles tratavam especificamente do problema da ingestão do plástico, descobrimos que o problema já havia sido levantado em mais de 1500 espécies incluindo peixes, aves, mamíferos, répteis e invertebrados. Como já disse em outra ocasião, de invertebrados na Antártica, elefantes, passando por baleias e zooplâncton, está todo mundo comendo plástico, não importa sua história evolutiva nem sua posição ecológica. E esse número de espécies vai aumentando a cada ano. E foi com base na revisão dessa literatura que nos unimos para escrever o artigo publicado na Science.

A revista Science é conhecida pelo processo rigoroso de seleção e publicação de artigos científicos. Como se deu a aprovação e quanto tempo levou para o artigo ser aceito, editado e publicado?

Sim, é um processo longo de várias etapas entre a apresentação da proposta do artigo e a publicação. Após enviarmos um resumo com a proposta do artigo, esse resumo foi avaliado pelos editores que, em seguida, enviaram para outros pesquisadores, enfim, esse trabalho de avaliação entre pares e edição durou quase um ano.

Você nasceu no Espírito Santo, morou em João Pessoa e decidiu morar e dar aulas em Maceió, onde também coordena o Laboratório de Biologia Marinha e Conservação. Como Alagoas, Estado conhecido por suas praias, rios e lagoas, poderia se tornar referência para evitar a presença do plástico em suas águas?

Esse é um problema global, que envolve uma cadeia produtiva hoje espalhada em todas as regiões do mundo, mas que merece toda atenção local, sim. Em primeiro lugar, precisamos entender que existem diversos tipos de plásticos, cada um com sua especificidade e problema, inclusive para a saúde humana. Como material em si, o plástico não é um vilão. É um material leve, durável e essencial em várias áreas, como a Medicina, por exemplo. O problema é seu uso indiscriminado e produção em massa para produtos descartáveis como embalagens, sacolas, copos plásticos. Estima-se que cerca de 40% de todo plástico produzido no mundo não fica mais de um ano em circulação e logo vai para o lixo. Daí a necessidade de entender e mudar toda a cadeia produtiva, da produção ao descarte. Alagoas e Maceió, como capital turística, pode e deve começar a implantar um trabalho para proteger suas águas do descarte de plástico. Maceió, conhecida por ter uma das orlas mais belas do país, poderia também ter a orla mais limpa e livre de plástico do Brasil, por que não? Para isso, é preciso traçar uma meta concreta e possível.

Uma meta tal como…

Como, por exemplo, estabelecer a meta de livrar nossa orla da comercialização de plástico até 2030. Não acredito que isso se faz baixando uma lei proibindo, de um mês para outro, a comercialização de produtos plásticos. Trata-se de realizar um projeto durável que envolva toda  a sociedade e crie estímulos para o setor produtivo, incluindo não apenas bares, restaurantes e hotelaria, como também os pequenos negociantes e vendedores ambulantes. Além de essenciais para o meio ambiente do Estado, as praias, lagoas e rios são ativos essenciais para a economia do turismo. Por que não criar, por exemplo, uma campanha de estímulo e um certificado para os negociantes que não usam mais plástico na orla. Uma das razões pela qual decidi morar em Maceió foi exatamente para ter a chance de morar perto desse litoral único em sua beleza e diversidade. E se não tratarmos com seriedade temas como a produção e descarte de plástico na cidade, todo Estado de Alagoas e Maceió sairá perdendo.

Veja citação do artigo publicado na Science no link abaixo:

Plastic ingestion as an evolutionary trap: Toward a holistic understandingBy Robson G. Santos, Gabriel E. Machovsky-Capuska, Ryan Andrades
Science 02 Jul 2021 : 56-60






  • Ideias
  • Agenda A ideias é um espaço plural discussão de temas comprometidos com a melhoria do ambiente de negócios e da qualidade de vida dos alagoanos.

  •  
  • Turismo
  • Vídeos

© AGENDA A 2013. All rights reserved