“Sem estratégia, ninguém sobrevive no mundo ‘figital’”, diz Silvio Meira em evento do Sebrae Alagoas

Publicado em 27 de Jul de 2022

Silvio Meira, palestrante do evento do Sebrae Alagoas 50+50 em homenagem aos aos 50 anos do Sebrae Nacional (foto Léo Ramos Chaves)

 


 

Na semana passada, o cientista-chefe da consultoria TDS e fundador do Porto Digital de Recife, Silvio Meira, subiu ao palco no Espaço Armazém, no Jaraguá, para falar de futuro no evento Sebrae 50 + 50, realizado pelo Sebrae Alagoas, em comemoração aos 50 anos da principal instituição do país de apoio a pequenas e microempresas.

Antes da palestra, que contou com apresentação da Orquestra Filarmônica de Alagoas e depoimentos de empreendedores, consultores, colaboradores e parceiros do Sebrae Alagoas, Meira fala na entrevista abaixo sobre como micro e pequenas empresas podem sobreviver e crescer num mercado onde grandes corporações dominam cada vez mais as grandes vias do mundo “figital”  - em que a logística física e a estratégia digital estão entrelaçadas.

 

Além de seu currículo de professor, fundador do Porto Digital, consultor e palestrante, você hoje integra o conselho de grandes redes de varejo (como o Magazine Luiza) e tem acompanhado o movimento de concentração do comércio eletrônico em grandes marketplaces. Frente a esses gigantes, que estratégias as pequenas e médias empresas devem adotar para não se contentar apenas em sobreviver?

O primeiro passo é desenhar um cenário. Sem entender o cenário no qual você está competindo, fica muito difícil. É preciso construir personas para seus produtos e serviços, levantar hipóteses consistentes, testar e validar essas hipóteses em função do modelo de negócio. Afinal, que problema você vai resolver? Para quem? Qual o potencial desse mercado? Ninguém deve encarar um pequeno negócio como destino, e sim como ponto de partida. E neste ambiente figital (físico + digital) onde grandes grupos com alta capacidade de investimento, recursos e habilidades montam grandes plataformas em ecossistemas articulados, não há como competir sem buscar diferenciação, sem enxergar as lacunas que não poderão ser preenchidas por essas grandes plataformas. No caso do comércio eletrônico, por exemplo, isso surgir numa abordagem de atendimento hiperlocal ou na formação de redes e cooperativas para vender produtos diferenciados de alto valor agregado. 

Poderia dar um exemplo?

Preste atenção, por exemplo, nestas belíssimas peças de arte popular e artesanato que encontramos aqui no Sebrae Alagoas. São peças que contam uma história, que têm valor único e exigem uma curadoria e cuidado de logística na entrega que podem se tornar num negócio interessante. Por que não, por exemplo, formar redes ou cooperativas para pensar num sistema maior de entregas. É claro que diante de grandes plataformas de redes de varejo, faz pouco sentido montar um sistema de comércio eletrônico para disputar mercado, por exemplo, pelo menor preço de uma geladeira. Mas há uma série de lacunas de produtos e serviços que não serão atendidos por essas plataformas e que podem se tornar negócios interessantes para quem souber criar diferenciação. Daí a importância de traçar um cenário para criar diferenciação e articular redes e cooperativas para se tornar, de fato, competitivo.

Em como “Novos Negócios no Brasil” e “O que é estratégia”, você discorda da ideia de que a tecnologia tornou o “mundo plano” e reforça que, na prática, uma boa estratégia competitiva ainda depende essencialmente do nível de capital humano. Esse é um dos motivos que levam muitas micro e pequenas empresas no Brasil e no Nordeste a não conseguir crescer? Como sair desse complexo de Peter Pan?  

 Não só no Nordeste, mas em todo o Brasil, temos que evoluir do empreendedorismo por necessidade para o empreendedorismo de oportunidade. Claro que muitos grandes negócios nasceram, lá atrás, de alguém que precisava empreender para sobreviver. Mas, como disse há pouco, ter um pequeno negócio deveria ser um ponto de partida, não de chegada. E não há como sair disso sem um investimento forte na base, nos princípios, que está na formação do chamado capital humano. As estratégias competitivas neste ambiente figital dependem do nível dos agentes envolvidos, que requer pessoas com capacidade e habilidade para executar essa estratégia, ou ao menos para reconhecer os limites do seu conhecimento e saber que tem meios para aprender.

Ou seja, precisam ter inteligência para reconhecer ao menos aquilo que não sabem…

Exatamente. Sem pessoas com essas capacidades, até a melhor estratégia de negócio está condenada ao fracasso. Por isso mesmo, quando se pensa em estratégia, formar gente tem que ser a prioridade, do primeiro ao nono lugar. Nesse novo mundo, onde o centro de decisão da empresa é alimentada por tecnologias de programação sofisticadas com base em blockchain (tecnologia que garante a segurança das transações com criptoativos que permite rastrear o envio e o recebimento de informações pela internet), toda decisão precisa ser tomada com base em tecnologia da informação. A empresa que ainda enxerga a TI como um departamento à parte, sabe, chamado apenas para resolver um problema, está fadada a acabar. As estratégias figitais são tomadas com base em dados sofisticados que permitem a empresa rastrear seu comportamento de consumo para lhe fazer outra oferta, a melhor localização logística para fazer uma entrega com menor custo em menor tempo de entrega. Ou seja, são todos esses dados que farão a diferença de quem vai ou não sobreviver. Neste contexto, os donos de pequenos negócios, por exemplo, preferem testar a aceitação de seus produtos em grandes marketplaces já existentes em vez de acreditar que vão conseguir ingenuamente se tornar uma nova Amazon. Nos últimos 10, 15 anos, é ingênuo montar uma startup acreditando que ela será o novo Uber, a nova Amazon. A maioria desses grandes mercados foi ocupado. É preciso pensar em outros segmentos, nichos, que ainda são resolvidos por essas grandes. Vejo muitas oportunidades, por exemplo, em plataformas que melhorem serviços como o de construção civil, cuidado de pets e de plantas, enfim, buscar serviços locais que resolvam problemas reais de uma comunidade.   

Você é parceiro do Sebrae há alguns anos e tem acompanhado os avanços das pequenas e médias empresas no Brasil. Quais os desafios que o Sebrae enfrentará nos proximos 50 anos?

Desde que nasceu, em 1972, o Sebrae teve um papel fundamental para estruturar as micro e pequenas empresas no Brasil a antecipar cenários de futuros numa época em que o Brasil passava por um surto de crescimento industrial, mas permanecia preso a uma cultura empreendedora incipiente. Num Brasil então de economia fechada, com pouco acesso a informações de qualidade sobre gestão, o Sebrae usou sua capacidade de mobilização e articulação de redes nacionais num país de dimensões continentais para formar gerações de novos empreendedores e fomentar milhares de negócios que mudaram o cenário para as micro e pequenas empresas no Brasil. Nos próximos 50 anos, quando o acesso a informações básicas de gestão e marketing estão disseminadas na rede e viraram quase commodities, cabe ao Sebrae se concentrar em desafios maiores, na formação de ecossistemas, cooperativas digitais, articulação de redes, estratégias de financiamento coletivo, enfim, preparando os pequenos negócios para competirem no cenário figital com ambição para se tornarem negócio de classe global com ambição para deixar de ser, ao fim, pequenos negócios.



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