“Fiquei encantado com Penedo e com o que vi do cinema alagoano”, diz Matheus Nachtergaele

Publicado em 27 de Dezembro de 2020

Matheus Nachtergaele (à esquerda) e o ator alagoano Luciano Pedro Jr, que faz o protagonista "Uno" em Carro Rei: filme foi selecionado para o Festival de Cinema de Roterdã

por Rodrigo Cavalcante

A poucos dias de completar 53 anos (3 de janeiro), Matheus Nachtergaele permanece inquieto.

Com mais de 30 de carreira sólida e premiada no teatro, televisão e cinema, o ator não se acomoda e mantém-se aberto a parcerias com cineastas de diversas regiões do país, como é o caso da pernambucana Renata Pinheiro, diretora do longa Carro Rei, ficção científica rodada em Caruaru que acaba de ser selecionada para a competição oficial do Festival de Roterdã, na Holanda.

No longa, que faz uma crítica de uma sociedade centrada no automóvel, Matheus vive o papel do mecânico Zé Macaco e contracena com o jovem ator alagoano Luciano Pedro Jr, de 22 anos, que interpreta o protagonosta do filme, “Uno,”sobrinho do personagem do ator paulista. O elenco conta ainda com a alagoana Ane Oliva, que foi destaque no curta A Barca, de Nilton Resende.

“É sempre um prazer e aprendizado contracenar com jovens atores”, diz Matheus, lembrando ele próprio das primeiras vezes em que contracenou com nomes como o de Fernanda Montenegro, de quem ele diz que levou até “boas broncas”.   

Na entrevista a AGENDA A, Matheus fala do novo filme, de sua relação com o cinema pernambucano, dos filmes alagoanos que viu na 10º Circuito Penedo de Cinema e da peça “Processo do Conscerto do Desejo”, em que expõe textos da própria mãe, a poetisa Maria Cecília, que morreu quando ele tinha dois meses de idade -- e só aos 16 soube, por seu pai, que ela havia se suicidado.

Confira: 

AGENDA A: Em mais de 30 anos de carreira, você sempre encontra espaço para atuar não apenas em filmes de maior alcance que o tornaram popular, como o João Grilo na minissérie Auto da Compadecida, ou o traficante Cenoura no thriller Cidade de Deus, mas também em produções de ovjutros circuitos, como as parcerias com o diretor pernambucano Cláudio Assis e agora com a diretora Renata Pinheiro. É uma decisão consciente para não se acomodar ao mainstream? 

Acho que existe, sim, uma inquietação bonita que me levou ao palco e acho que permanece com tonalidades diferentes agora com o passar dos anos, que me leva sempre a buscar  parceiros que compartilham dessa mesma inquietação. Mesmo na televisão, a maior parte do meu trabalho foi sempre em parceria com pessoas genuinamente inquietas e interessadas, como o Guel Arraes (diretor do Auto da Compadecida), Jorge Furtado (da série A Comédia da Vida Privada). E acho que essa índole me aproximou de outras personalidades que, naquele momento, estavam construindo de uma maneira bela a retomada do cinema brasileiro, como Walter Salles, Bruno Barreto, assim como, em Pernambuco, com o Cláudio Assis. Foi assim que conheci a Renata Pinheiro (abaixo), com quem já tive o prazer de conviver como diretora de arte dos filmes do Claudio, e agora como diretora de Carro Rei, que acabou de nos dar esse grande presente de Natal, com a notícia da seleção para o Festival de Roterdã. 

No filme, você contracena com os atores alagoanos Luciano Pedro Jr e Ane Oliva, que estrearam pela primeira vez num longa-metragem. Você também esteve em Penedo, no Circuito de Cinema. Qual sua impressão dos novos atores e filmes do cinema alagoano?  

Quando a pandemia pareceu dar uma trégua eu, que guardei isolamento, decidi ficar um tempo em uma praia de Carneiros. Como estávamos lançando Piedade, decidi, com todos os cuidados, ir de carro até Penedo. E fiquei encantado com a cidade. Moro no Rio e sou apaixonado por outras cidades históricas, como Parati, Olinda, as cidades de Minas, onde terminei comprando uma casa em Tiradentes. E em Penedo pude conhecer um pouco da cena desse cinema alagoano nascente e já tão vibrante, que tem revelado talentos como o Luciano e a Ane, companheiros em Carro Rei. Gosto muito de trabalhar em projetos com novos atores, a gente sempre aprende muito, tira muita coisa deles, é uma troca bonita.  

Mas, na prática, eles não ficam um tanto intimidados em contracenar com alguém com a sua experiência?

Talvez fiquem um pouco, mas a gente logo dá um jeito de quebrar o gelo porque, afinal, estamos todos na mesma barca. E esse senso a gente ganha desde o teatro, esse aprendizado de entender que ali somos parte de uma grande família. Tanto é assim que logo fiquei amigo deles. Me revejo nos jovens atores e, se possível, tento ajudá-los, sem presunção e tendo o cuidado para não interferir demais. No Auto da Compadecida, me vi ao lado da Fernanda Montenegro com dicas e até broncas preciosas. Às vezes ela dizia: “tá exagerado”, “cuidado com o ritmo”. E a gente vai aprendendo até hoje, claro, às vezes seguindo os conselhos, às vezes fazendo do nosso jeito mesmo (risos).

Dos filmes alagoanos que você viu em Penedo, algum lhe chamou a atenção?

Sim, fiquei muito interessado com o que vi do cinema alagoano, que ainda não conhecia, e que tive a oportunidade de assistir por lá. Filmes como Cavalo, do Rafhael (Rafhael Barbosa e Werner Salles), um filme-dança que investiga de uma maneira muito original as pulsões da religiosidade e da cultura brasileira, de maneira que não se costuma ver em documentários sobre o tema. Adorei o Ilhas de Calor (dirigido por Ulysses Arthur), que narra de uma forma deliciosa e criativa a história dentro de um aluno trans (abaixo) dentro de um colégio em Alagoas. Muito bacana como, com poucos recursos, o filme ia reconstruindo os cenários na sala de aula mudando as carteiras dos alunos.  Percebi, no cinema alagoano, uma maneira muito original de investigar as origens da nossa cultura. Inclusive soube que muitas das tradições populares brasileiras, que terminam sendo mais reconhecidas em outros Estados, têm sua origem mais forte em Alagoas, como o Bumba meu Boi. Pelo menos foi o que me contaram.  

Essa nova safra do cinema alagoano é resultado de uma geração de profissionais do audiovisual alagoano que  pressionou prefeituras e Governo a lançar editais em parceria com a Ancine, via recursos de fundos do próprio setor audiovisual do país. Na sua visão, a atual política do Governo Federal de restrição desses recursos causará um apagão temporário ou terá consequências mais duradouras para o cinema nacional, como foi a extinção da Embrafilme no governo Collor?   

É terrível, mas acredito que será um estrago que deixará uma marca duradoura. Até porque ainda temos dois anos né, desse inferno. E pode escrever inferno, mesmo, não tenho medo. São marcas não apenas no desestímulo ao cinema e à cultura, mas também no meio ambiente, nos direitos de comunidades vulneráveis,  em várias áreas. E isso após esse momento de retomada do cinema brasileiro que produziu tanta coisa bela e importante para nos compreendermos. O vigor do cinema pernambucano, por exemplo, é também fruto dessa retomada.  E agora esse estrago, que já está acontecendo nesse momento. Carro Rei, que estamos lançando agora, é colheita de um projeto plantado anos atrás. E nesse momento, com exceção de projetos de empresas como Netflix, Globoplay, não estamos vendo nascer novos projetos. E isso implica em poucas estreias no futuro. E o pior desse tipo de política é que ela ceifa toda uma nova geração de talentos que, não podendo mais trabalhar com cinema, vão buscar emprego em outras áreas, claro. Infelizmente, é o que pode acontecer, inclusive em Alagoas. Se novos projetos não são plantados, toda essa nova geração do cinema alagoano corre o risco de trocar de área e esse movimento alagoanos pode morrer na praia. 

Em meio à pandemia, você fez uma versão live do espetáculo O Processo de Conscerto do Desejo (com o título Desconscerto, veja link aqui), com texto de poemas de sua mãe, a poetisa Maria Cecília, que se suicidou quando você tinha dois meses de idade. Encarar esse tema nos palcos foi uma forma de fechar um ciclo?

Acho que O Processo de Conscerto do Desejo foi o ápice desse círculo, dessa busca. Não conheci minha mãe. E, por meio dos textos dela, a cada noite, no espetáculo, vou deixando ela viva e fazendo meu luto, encarando bichos de frente, me transformando. Na live, o desafio foi maior. Até porque foi uma versão concentrada em que não pude contar com o suporte dos músicos ao vivo no palco, enfim, foi um risco maior. 

Verdade que você só teve acesso aos poemas dela aos 16 anos, quando seu pai lhe contou sobre o suicídio? Até que ponto esse fato foi decisivo para sua carreira artística?   

Sim, meu pai mostrou os textos só depois de me contar. E é claro que uma revelação dessas muda a gente. Estávamos numa casa de praia, passei a noite em frente ao mar. Mas, antes mesmo dessa revelação, já tinha tendência para o mundo das artes, gostava de desenhar. Não sei até que ponto herdei isso cromossomicamente da minha mãe. Ou mesmo herdei indiretamente, por meio da biblioteca que ela deixou, que me despertou o prazer desde cedo pela literatura. Assim como meu pai (engenheiro e músico belga Jean Pierre Nachtergaele), que tocou banjo na Traditional Jazz Orquestra, ela também tocava, além de escrever seus poemas. Acho que tive neles bons professores.

Alguma chance de, passado esse período de pandemia, você se apresentar em Alagoas?

Não apenas chance, já estou me mexendo para levar o espetáculo para Penedo. Minha produção está até em contato com produtores de lá e, quem sabe, se der tudo certo, nos apresentaremos em Penedo em abril do próximo ano. Ficarei muito feliz em voltar.

Abaixo, o ator na peça O Processo de Conscerto do Desejo: articulação para se apresentar em Alagoas no próximo ano 




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