Fundador de livraria que influenciou geração de alagoanos morre em Recife vítima da Covid-19

Publicado em 28 de Janeiro de 2021

por Rodrigo Cavalcante

Em tempos de amazon.com, talvez seja difícil traduzir a importância que o potiguar Tarcísio Pereira (foto acima), que faleceu na noite de segunda-feira (25) no Hospital Português, em Recife, aos 73 anos, vítima de complicações da Covid-19, teve para formação de leitores em todo o Nordeste -- inclusive aqui em Alagoas.

Fundador da Livro 7, livraria aberta em 1970 numa sala de 20 metros quadrados no Centro de Recife (que poucos anos depois se tornaria uma das maiores da América Latina, já instalada num imenso galpão na foto à esquerda), Tarcísio decidiu ainda na década de 1970 expandir sua atuação para outros Estados do Nordeste, começando por Alagoas -- onde percebeu que havia uma oportunidade de mercado ao participar de feiras de livros na Praça Sinimbu, onde costumava trazer livros em uma Kombi. 

Assim nasceu a filial da Livro 7 em Maceió, na Rua Cincinato Pinto, que, em 1983, ganharia novo vigor e mais força com a vinda dos irmãos João e Ricardo para assumir a filial, que ganhou o nome Caetés, em homenagem naquele ano aos cinquenta anos da publicação do romance homônimo de estreia de Graciliano Ramos -- comemorada na livraria com a presença da viúva do escritor alagoano, Heloísa Ramos.

“O desembarque da Livro 7 em Maceió, rebatizada depois como Caetés, oxigenou o mercado de livros em Alagoas se tornando um ponto de encontro tanto de acadêmicos já renomados do Estado, como o professor Silvio de Macedo, como de jovens estudantes ginasiais, como eu, que conheci pela primeira vez a livraria em busca de livros sobre futebol”, diz o historiador Geraldo de Majella, autor de livros como “Panorama Cultural de Maceió”, que narra a trajetória de livrarias e editoras em Alagoas.  

Irmão de Tarcísio, o hoje pedagogo e servidor da Secretaria Estadual de Educação em Alagoas, João Maria Fernandes Pereira (na foto abaixo, o último à direita), relembra quando veio a Alagoas assumir a filial da livraria em Maceió. 

“Após casar e ter me formado em Administração, chegamos à conclusão de que deveria vir junto com meu irmão mais novo Ricardo a Maceió assumir a filial que, naquele início dos anos 1980, precisava de um novo impulso”, diz João Maria Pereira. “Além da mudança de nome, investimos na ampliação do acervo e até na abertura de novas frentes, com a venda de LPs de gravadoras e compositores alternativos”. 

Aos sábados de manhã, a livraria não apenas reunia professores, estudantes e intelectuais, como até mesmo rodas de músicos que faziam sarau na Caetés.  

Com a decadência do Centro de Maceió e a insistência em manter um modelo centrado na venda de livros -- e não de papelaria e presentes, como outras livrarias de shoppings --, a Caetés fechou as portas, em 2006, mesmo tendo tentado se expandir para outros bairros como Ponta Verde (com uma pequena filial na Rua Mário de Gusmão e depois em centros comerciais como o Shopping Farol, fechadas alguns anos depois, assim como a Livro 7 em Recife, que fechou antes mesmo da filial alagoana, em 1998).

Mesmo com o fechamento da Livro 7, Tarcísio continuou perto dos livros como Presidente do Conselho Editorial e Superintendente de Marketing da Companhia Editoral de Pernambuco, a Cepe, promovendo lançamentos da editora inclusive em Maceió, onde veio em maio de 2018 lançar o livro “O Trem Para Branquinha”, do economista Gustavo Maia Gomes.

Por recomendação expressa dos filhos (que não queriam expor o pai a uma possível contaminação pela Covid-19), seu irmão radicado em Maceió, João Maria Pereira, se emociona por não ter podido ir ao sepultamento do irmão mais velho. “Ele sempre vinha passar vários dias aqui conosco e não sei se vou me perdoar por não ter ido ao sepultamento dele, ainda que em meio ao recrudescimento da pandemia”, diz João, que tinha mais de 10 anos a menos do que o irmão mais velho, que marcou toda uma geração de leitores, estudiosos e escritores alagoanos que se formaram à sombra da livraria em Alagoas e Pernambuco. 

Entre esses alagoanos, está o poeta Sidney Wanderley escreve, abaixo, uma crônica sobre a importância de Tarcísio em sua formação.

Um homem entre livros


por Sidney Wanderley

Há pessoas que nos proporcionam alguns dos mais luminosos momentos de nossa vida e jamais saberão disso. A elas, nossa gratidão anônima e eterna. Para mim, Tarcísio Pereira foi uma dessas pessoas. Dono daquela que se tornaria a maior livraria da América Latina, a Livro 7 do Recife, com direito a pracinha e bancos para folhearmos demoradamente algum volume que cobiçávamos, foi também proprietário da Disco 7, vizinha à livraria, onde adquiri preciosos vinis de música clássica (cito, por todos, os Concertos de Telemann regidos por Reinhard Goebel e os Concertos de Brandemburgo de Bach sob a batuta de Karl Richter) e da MPB (cito, por todos, Chico Buarque, o Quinteto Violado, a Banda de Pau e Corda e a Orquestra Armorial).

Como lhe dizer, meu querido Tarcísio, da emoção que transbordante me invadia desde a véspera de minhas viagens ao Recife, sonhando com a invasão da sua livraria? Como lhe contar da emoção naquele remoto dezembro de 73 em que descobri “Morte e vida Severina” e “O rio” do nosso João Cabral de Melo Neto numa precária edição da José Olympio? E da impressão de que eu era o senhor dono do mundo quando, em janeiro de 88, adquiri as “Obras completas” de Borges, em espanhol, da editora Emecé? Ou da febre que me incendiou quando, em julho de 81, apossei-me de um exemplar que não mais possuo, para a minha primeira leitura de “Grande sertão: veredas”, do mago mineiro João Guimarães Rosa?

Você, com sua serenidade e seu boné, assistia embevecido ao desabrochar de jovens leitores e atendia com prontidão aos pedidos de velhos, exigentes e por vezes abusados leitores, estes com direito irrestrito ao crediário. E fazia vista grossa a alguns amantes da literatura que, despossuídos do vil metal, furtavam-lhe volumes de Neruda e Tolstói. Cavaletes e estantes repletos de livros espalhavam-se por 1.200 m² disponibilizados para a nossa curiosidade e cobiça, ambas insaciáveis. Mais que um espaço para ler e comprar, era uma casa para sonhar. A nossa casa no Recife.

Anteontem a Covid, que já nos levou Aldir Blanc e Sérgio Sant’Anna, poupou Bolsonaro e Pazuello e furtou-nos você. Retire o boné, meu caro Tarcísio, que quero beijar-lhe suavemente a fronte e nela depositar uma férvida lágrima de agradecimento e desconsolo.




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